30/06/2020

Mendonça de Barros fala sobre o momento econômi

Em videoconferência na manhã desta terça-feira (30/6) com dirigentes, conselheiros, cooperados e colaboradores da Cocamar, o economista José Roberto Mendonça de Barros disse acreditar que os efeitos da pandemia do novo coronavírus tendem a ser perversos no Brasil, um país muito grande, justificou, onde a doença ainda está chegando a algumas regiões, e com a preocupação de que sobrevenham outras ondas de contágio após a atual, que começou em fevereiro. “É uma experiência inédita, nunca ninguém viveu algo parecido diante da rápida universalização do vírus”, citou, prevendo um PIB negativo para a maior parte das nações, uma queda que pode chegar a 7% este ano no Brasil, 8% na média dos países desenvolvidos e 5% no mundo. Somente a China projeta um PIB positivo, ainda assim de 1%.

 

LENTIDÃO - O diretor da MB Associados de São Paulo lembra que os países ainda não sabem como lidar com o problema, com o agravante de que houve uma parada súbita na economia, ocasionando desemprego. “A nosso ver, o país terá uma recuperação lenta”, disse, explicando que com a perda de emprego e renda, as pessoas tendem a gastar menos, mesmo com alimentação, preferindo produtos básicos e mais baratos. Outro fator é que muitas empresas foram pegas no contrapé e se encontram sem caixa e sem capital de giro.

 

AJUDA - Com o chamado “coronavolcher”, os países têm auxiliado financeiramente a população (a ajuda é de R$ 600/mês no Brasil, mas nos EUA chega a US$ 1,2 mil/semana), fazendo com que a demanda por alimentos continue firme.  

 

PREÇOS SUSTENTADOS - Mendonça de Barros lembrou que se por um lado a China já enfrentava uma grave crise de proteína quando a pandemia começou, de outro a produção de carnes foi afetada pelo Covid-19 nos Estados Unidos, o que sustenta os preços internacionais e beneficia países produtores como o Brasil. “O fato de as pessoas ficarem em casa promoveu, também, um aumento de consumo de café e suco de laranja nos EUA”, pontuou o economista.

 

EFICIÊNCIA - Em moeda brasileira, os preços dos principais produtos agrícolas se encontram favoráveis, assinalou, reiterando que o cenário no setor de alimentos é positivo. “A crise premiou a eficiência do fornecedor confiável que é o Brasil.”

 

PROLONGAR - Para o segundo semestre no país que, em paralelo ao avanço da pandemia, enfrenta grave crise política, Mendonça de Barros disse que “infelizmente o Brasil não tem se destacado na eficiência para gerir a crise e os efeitos da doença devem ser mais duradouros”. A falta de entendimento entre os diversos poderes pode tornar mais longa a pandemia. “A Alemanha, que fez a lição de casa, voltou à normalidade em dois meses. Aqui, em quatro meses, ainda não enxergamos a luz no final do túnel”, disse.

 

MENOS VULNERÁVEIS - Segundo ele, há cinco segmentos da economia que devem ser manter menos vulneráveis: o agronegócio, o carro-chefe, que conseguiu se ajustar rapidamente aos protocolos; a logística, responsável pelo abastecimento de todas as regiões do país; as telecomunicações, que vêm sendo bastante demandadas; o setor bancário, que já estava estruturado para a operação home bank; e o comércio especializado em necessidades básicas, como supermercados e farmácias.

 

EMPOBRECIMENTO - Mendonça de Barros citou que o Brasil pode ter uma década inteira sem crescimento, o que deve empobrecer em pelo menos 15% a população. “Ainda nem conseguimos nos recuperar da crise de 2015 e enfrentamos um momento pior.”

 

COMO SE REORGANIZAR - A dúvida, segundo ele, é saber como o governo vai se reorganizar, pois os gastos com a pandemia devem levar a um déficit recorde no orçamento público. Ele comenta também que a taxa Selic atinge o nível mais baixo da história, 2,25% ao ano. No entanto, o crédito dificilmente chega às mãos de quem precisa: “o sistema bancário está fechado para as pequenas e médias empresas”.

 

DÓLAR X VENDAS - Quanto ao dólar, ele frisou que o cenário internacional vem causando fortes oscilações na moeda que rege também a cotação das commodities agrícolas. “É impossível fazer uma projeção, achamos que deve flutuar acima de R$ 5,00, mas recomenda-se absoluta cautela”, referindo-se, em particular, aos produtores que ainda esperam por uma oportunidade para comercializar a sua safra. “Se o preço no momento é bom, sugerimos fechar logo, não é o momento de tentar acertar o olho da mosca.”

 

CONTRIBUIÇÃO DO SETOR - Sobre a ajuda do agro à economia brasileira em tempos de pandemia, Mendonça de Barros relacionou a sua rapidez em ajustar-se às exigências, o desempenho favorável, o abastecimento da população a preços razoáveis e a forte geração de divisas com as exportações. “O agronegócio consegue fazer tudo isso registrando aumento de produtividade e investimentos, tornando-se ainda mais forte e robusto.” Na visão dele, vai ser, naturalmente, o segmento de maior peso na recuperação econômica, “o puxador do crescimento”. Nesse ponto, ele disse ser fã do sistema cooperativista, que garante sustentação a centenas de milhares de pequenos produtores na região Sul.

 

IMPOSTOS - Mendonça de Barros afirmou que o governo poderá promover um aumento de impostos para enfrentar os novos tempos, mas acredita que as chances de o país imitar a Argentina e sobretaxar as exportações do agro, são reduzidas. “Por ser o puxador da economia, o setor deve ser preservado.”

 

DESMATAMENTO - Na videoconferência, que chegou a ser acompanhada por mais de 650 internautas, o economista teve como interlocutores o presidente-executivo Divanir Higino, o vice-presidente José Cícero Aderaldo e o presidente do Conselho de Administração, Luiz Lourenço. Ele externou preocupação com o problema real do desmatamento da Amazônia e do quanto isso pode causar uma reação aos importadores europeus, por exemplo. “Muitos investidores já estão torcendo o nariz por causa da Amazônia e o Brasil deveria ser mais rigoroso no combate ao desmatamento.”

 

INTOLERÁVEL - Mendonça de Barros comentou também sobre o que chamou de intolerável: os recorrentes ataques e insultos de membros do governo brasileiro ao principal cliente do país, a China. Por outro lado, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, discreta e notável pelo bom trabalho que vem realizando junto aos mercados, já se mostra cansada com a situação.

 

PRESERVAR OS CLIENTES - Concluindo, ele disse que a China já fala em um crescimento de 6% no próximo ano e que o mercado externo se apresenta bem mais favorável ao agronegócio do que a própria demanda interna, por estar bastante enfraquecida. Mas os compradores lá fora não abrem mão de exigências como rastreabilidade, qualidade e sustentabilidade. “Estamos muito bem nas exportações, mas precisamos saber preservar os nossos principais clientes.”

 



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