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VII ENCONTRO COCAMAR DE PRODUTORES DE SOJA
 

 


Gargalos de perdas de produtividade foi tema


O VII Encontro Cocamar de Produtores de Soja, evento que acontece todos os anos, sempre no mês de setembro, reuniu cerca de 300 cooperados especialmente convidados no último dia 4, na Associação Cocamar, em Maringá. Foram discutidos vários temas relacionados à safra 2007/08, que começa a ser semeada em meados de outubro. Um dos principais objetivos foi mostrar os gargalos de perdas de produtividade da soja na região Noroeste do Paraná e o que pode ser feito para melhorar os resultados. As palestras técnicas foram feitas por especialistas da Embrapa.
Na abertura, o presidente da Cocamar, Luiz Lourenço, falou sobre o bom momento pelo qual passa a agricultura, especialmente no caso dos produtores de grãos. Citando a tecnologia existente e os resultados que vêm sendo obtidos na região, Lourenço ressaltou que a pesquisa mostra que é possível melhorar muito a produtividade da soja. “Estamos preparando os técnicos e trazendo esse pessoal especializado para ajudar vocês. Espero que apliquem e aproveitem esse conhecimento. A tecnologia existe e está disponível. Depende apenas de nós para melhorarmos nossos índices de produtividade”, afirmou.


SOJA RR

Controle tardio do mato aumenta perdas de produtividade


A tranqüilidade de poder controlar as plantas daninhas em qualquer época de desenvolvimento da cultura, com o uso da soja RR geneticamente modificadas, tem feito com que muitos produtores deixem para aplicar o herbicida cada vez mais tarde, afirmou o engenheiro agrônomo Fernando Adegas, da Embrapa Soja, que falou sobre Manejo Integrado de Plantas Daninhas e Tecnologia de Aplicação. Da mesma forma, acrescentou, tem crescido o número de produtores que fazem o plantio de soja sem dessecar a área antes. A média saltou de 2% para 7% nas duas últimas safras. Essas práticas, entretanto, levam a perdas consideráveis de produtividade de soja com a competição do mato, alertou.
Ele citou que o período crítico da cultura, a partir de onde o mato começa a competir com a planta por água e nutrientes são de 20/25 dias e 45/50 dias, considerando as duas aplicações. “Trabalhos recentes já recomendam como período crítico para aplicar os herbicidas aos 14/15 dias”, disse. Entretanto, comentou Adegas, tem muitos produtores aplicando o herbicida com o fungicida, “o que significa que estão aplicando muito tarde. É preciso atentar que o período residual do glifosato antes de colher é de 56 dias”, complementou, comentando também sobre o aumento da prática de misturar produtos na aplicação, que nem sempre é recomendável ou permitido pela legislação vigente. Nas duas últimas safras passou de 51,7% dos produtores que adotam a prática para 62,4%.
Adegas chamou atenção para os erros na aplicação dos defensivos, que continuam sendo significativos, assim como o uso inadequado das tecnologias existentes, o que pode levar a perda delas. Ele citou os casos de plantas daninhas que já têm apresentado resistência ao glifosato (usado com a soja geneticamente modificada), como o azevém, buva e leiteiro. “O princípio básico do controle químico é a rotação de herbicidas”, ressaltou. Também afirmou que houve aumento do número de aplicações de glifosato que passou de 2,2 aplicações em 2005/06 para 2,4 em 2006/07 e da dosagem utilizada, de 2,3 litros por hectare em 2005/06, para 2,9 em 2006/07.
Além do erro humano na aplicação dos defensivos, Adegas comentou que falta inspeção periódica dos pulverizadores, prática que na Alemanha, por exemplo, é obrigatória desde 1968. Ele citou uma pesquisa que mostra que no Paraná, tido como um dos estados mais avançados em tecnologia agrícola, 30% dos pulverizadores estavam ruins, 35% mais ou menos e 35% em bom estado. Outra pesquisa: com um ano de uso, 96% dos manômetros estavam inadequados no Brasil.
Para Adegas, o produtor tem que avaliar o potencial operacional que possui, considerando o maquinário, a logística e o clima (temperatura, vento e umidade). Também que é preciso saber que tamanho de gota usar de acordo com o que se quer aplicar, em que condições de clima e porte de lavoura, além da quantidade de água usada, qual pressão usar, se pode misturar ou não os produtos químicos, e outros pontos, seguindo sempre a recomendação técnica.


Resposta para a estiagem está no manejo do solo

Os mais de 20 anos de pesquisa da Embrapa com plantio direto mostram que o manejo correto do solo é um dos principais responsáveis pela estabilidade e aumento dos rendimentos da soja e demais culturas anuais, segundo o engenheiro agrônomo Eleno Torres, consultor e ex-pesquisador da Embrapa Soja. “Não podemos mudar o tipo de solo que temos, mas o manejo deste interfere em suas características, na preservação dos resíduos culturais, da matéria orgânica, na redução da compactação, melhor distribuição do sistema radicular e até no armazenamento e menor evaporação da água”, disse.
As pesquisas mostram que nos primeiros cinco anos de adoção do plantio direto, o produtor não sente muita diferença, comparado ao plantio convencional. Depois, estabiliza a produção, passando as áreas de plantio direto, gradativamente, a produzir sempre mais que as de plantio convencional, especialmente em anos de estiagem. Torres citou um dos acompanhamentos feitos pela Embrapa onde a área de plantio direto produziu 11% e 15% a mais que a de plantio convencional em anos de clima normal, como 1998/99 e 2000/01.
Entretanto, nos anos de estiagem, a diferença foi considerável: em 2004/05, a diferença foi de 27% e em 1999/00, 98%, onde a lavoura com plantio direto produziu 121 sacas de soja por alqueire e a de plantio convencional, 61 sacas, 60 sacas a menos. Em outro experimento citado por Torres, em ano seco, a área onde há 13 anos era feito plantio convencional produziu 90 sacas por alqueire, onde o plantio direto era adotado há três anos, 103 sacas por alqueire, 14% a mais, e na área com 13 anos de plantio direto, 121 sacas por alqueire, 34% a mais.
Torres alertou para uma prática que tem se tornado comum, que é o uso de arado em cima da palhada do milho para facilitar o plantio da soja. “Perde-se muita matéria orgânica aí, que é fundamental para a produtividade e retenção de água no solo, mas difícil de acumular e muito fácil de degradar”. Considerando que a rotação de cultura deixa 10.000 kg/ha/ano de massa seca, que só 40% são de carbono (matéria orgânica) e só 20% desse são conservados, ele disse que são necessários 7,5 anos para elevar o teor de carbono no solo de 1,6% para 2,2% e, diante de qualquer erro, joga-se fora grande parte do trabalho.
O pesquisador ressaltou que a resposta para os problemas com a estiagem está no manejo do solo. As pesquisas mostram que solos mais argilosos armazenam de 65 a 90 mm água, que duram de 10 a 12 dias. Já os solos arenosos armazenam de 20 a 45 mm, o suficiente para três a sete dias, depois se começa a ter prejuízo com as culturas implantadas. “Por isso a importância de o solo ter cobertura e matéria orgânica. A cada 500 kg C/ha/ano é possível aumentar a capacidade de armazenar água de dois a três mm/ha/ano, o que daria, após 10 anos de plantio direto, de 20 a 30 mm/ha/ano.
Para quem reclama da compactação do solo no plantio direto, Torres comentou que isso só ocorre na ausência de rotação de culturas ou quando há trafego inadequado de máquinas. “Com a rotação de culturas é possível diminuir a compactação do solo, a incidência de doenças e pragas, melhorar a reciclagem de nutrientes, ajudar no controle de plantas daninhas e aumentar a produtividade”, disse. Com o objetivo de produzir matéria seca, o consultor lembrou que além da aveia, que pode ter seu desempenho prejudicado em anos secos, pode-se usar também milheto, brachiarias e panicum, que garantem uma boa cobertura do solo mesmo em anos mais quentes e secos.


Manejo integrado de doenças

Ao falar sobre o manejo integrado de doenças da soja, o engenheiro agrônomo Ademir de Assis Henning, da Embrapa Soja, deu ênfase a importância de se usar sementes tratadas e certificadas e de se dar atenção especial a ferrugem asiática, oídio e as doenças de final de ciclo.
Ele alertou para os riscos que o produtor e a agricultura correm com o uso de sementes não certificadas, como disseminação de pragas e doenças, baixa produtividade e falta de uniformidade no estande devido a misturas ou por serem variedades não adaptadas a região. Também pode desestruturar a pesquisa e o parque sementeiro tornando a cultura vulnerável às novas pragas e doenças, com conseqüente redução de produtividade e perda de competitividade.
Quanto à ferrugem asiática, Henning disse que já está presente em toda a região e que pode ser mais ou menos agressiva, dependendo de condições favoráveis como lavoura em período de florescimento, temperatura de 20 a 22ºC e molhamento maior que seis horas. Anos chuvosos, ressaltou, favorecem a doença e ainda dificulta o controle. “O pulo do gato é não perder a primeira aplicação”, afirmou, além de manejar a soja na entressafra evitando a soja voluntária, cultivo irrigado ou outras plantas hospedeiras; optar por variedades mais tolerantes; monitorar a lavoura e aplicar fungicidas após os primeiros sintomas ou de forma preventiva, considerando a situação da ferrugem na região, a capacidade operacional, as condições climáticas, o estádio da cultura e a incidência de outras doenças.
Henning lembrou que tecnologia de aplicação é fundamental para eficiência do controle químico. Deve-se aplicar o fungicida no alvo correto, com cobertura adequada, utilizando gotas finas (abaixo de 220 µm), mantendo a barra do pulverizador a uma altura média de 30 cm acima do dossel da cultura e dando preferência por volume de calda entre 140 a 180 l/ha. Também evitar aplicações sob condições climáticas adversas como temperatura acima de 30ºC, umidade do ar abaixo de 55% e ventos superiores a 8 km/h.


Soja responde a adubação

“Em nível de experimento é possível produzir mais de 290 sacas de soja por alqueire, e há registro no campo de produções próximas a 200 sacas por alqueire. Então porque as médias ficam tão abaixo disso?” Com esse questionamento, o engenheiro agrônomo Áureo Francisco Lantmann, consultor autônomo e ex-pesquisador da Embrapa Soja chamou a atenção dos produtores para a importância da adubação e calagem no cultivo da soja.
Ele disse que o adubo, que teve aumento de preço considerável nos últimos anos, responde por 17% do custo total e 32% do custo dos insumos, mas apesar de ser o item mais caro, é também o que pode aumentar mais a produção, se bem adotado. Por isso, ressaltou, o produtor tem que saber dimensionar para aproveitar melhor o adubo no solo. “Não se aduba sem análise de solo, que deve ser feita anual ou a cada dois anos, na profundidade de 0 a 15 ou 20 cm, em laboratório idôneo, avaliando o nível de micronutrientes também.
Para ilustrar a importância da adubação e da análise de solo, Lantmann citou o caso de um produtor no Maranhão que conseguiu produzir, em 1993, 227 sacas de soja por alqueire ou 94 sacas por hectare em cima de um solo pobre, mas que foi adubado com 430 quilos de adubo 02-20-18 por hectare, mais micronutrientes. Por outro lado, também citou outro produtor que fazia plantio direto há 12 anos em Dourados/MS e que em 1997, com base na análise de solo, plantou soja em uma área sem aplicar uma só grama de adubo e colheu 196 sacas por alqueire, a mesma produtividade de outra parcela onde aplicou 450 kg por hectare de 00-20-20 sem ter necessidade.
“É preciso usar a tecnologia disponível de forma correta para ter resultado. Não é tanto uma questão de investir mais, não é quantidade, mas o uso correto”, afirmou Lantmann. Ele citou cuidados simples como jogar o adubo no sulco não muito perto da semente, porque compete por água; fazer a inoculação da semente à sombra e o plantio no mesmo dia, evitando que as altas temperaturas eliminem as bactérias; aplicar potássio em duas etapas no arenito, metade na base e metade em cobertura; e optar por formulações que tenham bom teor de enxofre, que ajuda a aproveitar melhor outros nutrientes e que é importante para a formação de proteínas, nódulos e clorofila. Também usar, quando necessário, o gesso agrícola, que é barato e rico em cálcio e enxofre, tem boa mobilidade no solo e ajuda milho safrinha resistir bem à estiagem; fazer uma boa calagem, da forma correta e quando necessária, porque tanto a falta quanto o excesso podem ser prejudicial para a cultura; e fazer uso de micronutrientes.


Depoimentos de Produtores

“Quando você vê as produtividades de soja que podem ser alcançadas, vê o que pode ser melhorado na sua propriedade. Vê também a importância da análise de solo, da palhada em cobertura, e de um trabalho racional. A questão econômica tem dificultado que o pequeno e médio produtor adote a rotação de cultura e outras práticas, mas cada vez mais fica evidente a necessidade disso. É muito importante aproveitar oportunidades de conhecer mais sobre o assunto, como esta que a Cocamar nos proporciona.”
Eleandro Xavier dos Anjos, de Jussara, cuja família planta 60 alqueires de soja e milho safrinha.

“É importante esse tipo de trabalho que a Cocamar faz porque muitas vezes é a única forma que temos para conhecer as novidades. Já temos adotado algumas das tecnologias recomendadas e temos visto resultados. Cada vez mais o produtor está consciente de que a rotação de culturas é o caminho. É claro que sempre se leva em conta a questão econômica e o resultado imediato, mas com as mudanças climáticas, a rotação se mostra fundamental e devemos começar a fazer já no ano que vem.”
Claudemar Darici, de São Jorge do Ivaí, cuja família planta 60 alqueires de soja e milho safrinha.


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